{"id":6232,"date":"2018-05-13T11:44:35","date_gmt":"2018-05-13T14:44:35","guid":{"rendered":"http:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/?p=6232"},"modified":"2018-05-14T11:51:21","modified_gmt":"2018-05-14T14:51:21","slug":"negros-ganham-r-12-mil-a-menos-que-brancos-em-media-no-brasil-trabalhadores-relatam-dificuldades-e-racismo-velado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/noticias-em-destaque\/negros-ganham-r-12-mil-a-menos-que-brancos-em-media-no-brasil-trabalhadores-relatam-dificuldades-e-racismo-velado\/","title":{"rendered":"Negros ganham R$ 1,2 mil a menos que brancos em m\u00e9dia no Brasil; trabalhadores relatam dificuldades e \u2018racismo velado\u2019"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Aboli\u00e7\u00e3o completa 130 anos neste domingo (13). Segundo especialistas, per\u00edodo de escravid\u00e3o e falta de pol\u00edticas p\u00fablicas est\u00e3o por tr\u00e1s de desigualdades atuais. Negros t\u00eam \u00edndices de educa\u00e7\u00e3o mais baixos e condi\u00e7\u00f5es de vida mais prec\u00e1rias, apontam dados do IBGE.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eliad e uma conhecida ficaram desempregadas na mesma \u00e9poca. Uma amiga em comum resolveu ajudar. Encaminhou uma vaga de coordenadora de um projeto social em uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica para a conhecida. Para Eliad, ofereceu trabalho na sua casa, como dom\u00e9stica. Eliad \u00e9 negra; a conhecida, branca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuem tinha expertise para trabalhar como coordenadora de um projeto era eu. Mas eu fiquei ali como dom\u00e9stica. Precisava trabalhar, tinha uma filha para sustentar. \u00c9 assim que as coisas funcionam\u201d, diz Eliad dos Santos, de 52 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eliad tem mestrado em Teologia e Hist\u00f3ria, estudou na Universidade de Birmingham, no Reino Unido, e j\u00e1 assessorou e coordenou diversos projetos sociais, principalmente envolvendo tem\u00e1ticas de g\u00eanero e ra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por conta de sua alta escolaridade, ela acaba se sobressaindo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e9dia de negros no pa\u00eds, que t\u00eam \u00edndices de educa\u00e7\u00e3o mais baixos. Mas afirma que, em muitas situa\u00e7\u00f5es, o preconceito \u00e9 mais forte que os seus diplomas. \u201cO Brasil \u00e9 muito cruel nesse sentido, desse racismo velado. \u00c9 muito dif\u00edcil mesmo\u201d, diz.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-6233\" src=\"http:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729520_x720-450x253.jpg\" alt=\"\" width=\"665\" height=\"374\" srcset=\"https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729520_x720-450x253.jpg 450w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729520_x720-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729520_x720-768x432.jpg 768w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729520_x720-24x14.jpg 24w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729520_x720-36x20.jpg 36w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729520_x720-48x27.jpg 48w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729520_x720.jpg 1048w\" sizes=\"(max-width: 665px) 100vw, 665px\" \/><\/p>\n<p><strong>Negros ganham pouco mais que a metade que brancos em m\u00e9dia<\/strong><br \/>\nDe acordo com dados do IBGE obtidos pelo G1, os trabalhadores negros ganham cerca de R$ 1,2 mil a menos que os brancos em m\u00e9dia. Os dados s\u00e3o do 4\u00ba trimestre de 2017 e fazem parte da Pnad Trimestral, que disponibiliza informa\u00e7\u00f5es desde 2012. Os n\u00fameros mostram que, entre 2012 e 2017, n\u00e3o houve nenhuma mudan\u00e7a substancial na diferen\u00e7a de rendimento entre negros e brancos.<\/p>\n<p>Especialistas apontam que desigualdades hist\u00f3ricas est\u00e3o por tr\u00e1s das grandes disparidades enfrentadas pelos negros no mercado de trabalho. O menor acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um deles, bem como condi\u00e7\u00f5es de vida mais prec\u00e1rias.<\/p>\n<p><strong>Sal\u00e1rio m\u00e9dio dos brasileiros<\/strong><br \/>\nOs negros, que s\u00e3o os pretos e os pardos, segundo classifica\u00e7\u00e3o do IBGE, ganham bem menos que os brancos em m\u00e9dia (R$)2.6972.6971.5431.5431.5261.526BrancosPardosPretos050010001500200025003000<br \/>\nFonte: Pnad Trimestral, 4\u00ba semestre de 2017, IBGE<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O preconceito e o racismo s\u00e3o o outro lado dessa \u201cheran\u00e7a\u201d centen\u00e1ria, que remete, ainda segundo especialistas, ao per\u00edodo de escravid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 exatos 130 anos, a pr\u00e1tica de comprar e vender outras pessoas foi abolida do pa\u00eds com a Lei \u00c1urea, assinada no dia 13 de maio de 1888. Os negros, por\u00e9m, foram escravos no pa\u00eds durante mais de 300 anos, um per\u00edodo marcado por diversas revoltas, mas tamb\u00e9m pela naturaliza\u00e7\u00e3o da servid\u00e3o, segundo Maria Helena Machado, professora da Universidade de S\u00e3o Paulo especialista na hist\u00f3ria social da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNo Brasil, a escravid\u00e3o permeou a sociedade toda. As pessoas viviam com a escravid\u00e3o de maneira muito naturalizada. Quando uma sociedade \u00e9 constru\u00edda sob uma base dessas, a mudan\u00e7a \u00e9 bastante longa e dif\u00edcil, \u00e9 \u00e1rdua\u201d, diz a professora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c130 anos \u00e9 muito pouco para um pa\u00eds onde todo mundo era dono de escravo\u201d, diz Maria Helena Machado, professora da USP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, a desigualdade no pa\u00eds \u00e9 hist\u00f3rica. \u201cA forma como houve o processo de coloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds mais esse processo de escravid\u00e3o acabam por trazer uma heran\u00e7a muito forte\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Azeredo, a forma como os escravos foram libertados em 1888, sem nenhuma pol\u00edtica p\u00fablica de apoio aos emancipados, diz muito sobre o processo de integra\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de cor preta ou parda na popula\u00e7\u00e3o. \u201cA falta de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o vai remeter \u00e0 entrada em postos de trabalho de baixa qualidade e \u00e0 dificuldade de se inserir no mercado de trabalho.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa heran\u00e7a, segundo Azeredo, fica clara nos n\u00fameros. Considerando os 10% da popula\u00e7\u00e3o com os maiores rendimentos no Brasil, 8 a cada 10 s\u00e3o brancos. J\u00e1 entre os 10% mais pobres, a propor\u00e7\u00e3o se inverte: 8 a cada 10 s\u00e3o negros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da diferen\u00e7a m\u00e9dia no sal\u00e1rio, h\u00e1 mais trabalhadores negros sem carteira assinada que brancos \u2014 21,8% e 14,7%, respectivamente. A desocupa\u00e7\u00e3o desagregada por cor de pele tamb\u00e9m mostra que a taxa das pessoas que se declaram brancas (9,5%) \u00e9 bem mais baixa que a das que se declaram pretas (14,5%) e pardas (13,6%).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 entre os \u00edndices de educa\u00e7\u00e3o, os negros tamb\u00e9m est\u00e3o abaixo. Apenas 8,8% da popula\u00e7\u00e3o negra com mais de 25 anos frequentou uma faculdade. Para a popula\u00e7\u00e3o branca, esse \u00edndice \u00e9 de 22,2%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Azeredo destaca que, nos \u00faltimos anos da hist\u00f3ria do pa\u00eds, pol\u00edticas afirmativas, como cotas em servi\u00e7os p\u00fablicos e universidades, foram feitas para tentar diminuir as desigualdades raciais e tornar a entrada de negros no mercado de trabalho mais igualit\u00e1ria. Mas ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel perceber uma redu\u00e7\u00e3o na diferen\u00e7a do rendimento m\u00e9dio de brancos e negros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPelo menos nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, n\u00e3o percebemos uma redu\u00e7\u00e3o nessa diferen\u00e7a salarial\u201d, afirma. \u201cA desigualdade j\u00e1 \u00e9 muito cultural no pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-6234\" src=\"http:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729579_x720-450x253.jpg\" alt=\"\" width=\"653\" height=\"367\" srcset=\"https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729579_x720-450x253.jpg 450w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729579_x720-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729579_x720-768x432.jpg 768w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729579_x720-24x14.jpg 24w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729579_x720-36x20.jpg 36w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729579_x720-48x27.jpg 48w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/6729579_x720.jpg 1048w\" sizes=\"(max-width: 653px) 100vw, 653px\" \/><br \/>\nNegros relatam como lidam com a desigualdade no mercado de trabalho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Experi\u00eancias negativas no mercado de trabalho<\/strong><br \/>\nMesmo quando conseguem ter acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e se inserir no mercado de trabalho, por\u00e9m, negros relatam situa\u00e7\u00f5es de dificuldade por conta de preconceito, mostrando um outro lado da desigualdade cultural a que Azeredo se referiu \u2014 aquela que diz respeito n\u00e3o apenas \u00e0s desigualdades sociais a que negros vivem no pa\u00eds, mas a que refor\u00e7a estere\u00f3tipos e racismos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Willian Carvalho, de 21 anos, conta que conseguiu chegar \u00e0 faculdade \u201cresistindo\u201d contra esses preconceitos. O estudante, que mora com a fam\u00edlia em Perus, bairro da periferia da Zona Norte de S\u00e3o Paulo, diz que gosta de arquitetura e arte desde os 13 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um primo arquiteto j\u00e1 tinha lhe alertado que seu caminho profissional n\u00e3o seria f\u00e1cil. \u201cO que me deixava mais triste \u00e9 por ele sempre refor\u00e7ar: \u2018n\u00e3o vai ser f\u00e1cil porque voc\u00ea \u00e9 negro\u2019.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, anos depois, ele entende o que seu primo queria dizer. \u201cCriei minha empresa e comecei a pegar projetos. Mas tive a maior dificuldade, pois, quando falava com cliente por e-mail, era uma coisa. E a\u00ed quando eu chegava e eles viam que eu era negro, mudava completamente a atitude. Aquela educa\u00e7\u00e3o formal ca\u00eda\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo ele, sua maior dificuldade no mercado de trabalho \u00e9 provar que \u00e9 capacitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA gente sempre tem que estar provando dez, mil vezes que somos capazes, que n\u00f3s tivemos a forma\u00e7\u00e3o. \u2018Voc\u00ea \u00e9 negro design? Tem alguma coisa errada.\u2019 N\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel tamb\u00e9m\u201d, diz o estudante Willian Carvalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ellen dos Santos, engenheira de computa\u00e7\u00e3o de 32 anos, conta que passa pela mesma situa\u00e7\u00e3o. Uma colega se mostrou muito surpresa ao saber da sua forma\u00e7\u00e3o. \u201cEla arregalou o olho e falou: \u2018Nossa, voc\u00ea fez engenharia?\u2019 Como se eu n\u00e3o fosse capaz.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles contam que as dificuldades n\u00e3o se concentram apenas no ambiente de trabalho, mas no pr\u00f3prio processo de entrada no mercado. \u201cTeve um constrangimento que passei, que fui para uma entrevista de trabalho de tran\u00e7a e ele falou: \u2018Olha, n\u00e3o tem como voc\u00ea trabalhar de tran\u00e7a aqui nessa empresa\u2019. E eu perguntei: \u2018Por qu\u00ea?\u2019. \u2018Ah, o padr\u00e3o.\u2019 Quando ouvi essa palavra, j\u00e1 falei: \u2018N\u00e3o vou passar, infelizmente\u2019\u201d, conta Willian.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eliad diz que sua primeira experi\u00eancia negativa come\u00e7ou cedo. \u201cEu tinha de 14 para 15 anos. Eu ouvi algu\u00e9m dizendo que tinha um dentista que precisava de uma secret\u00e1ria. Eu liguei antes de sair de casa e a mo\u00e7a falou: \u2019Pode vir que a gente faz uma entrevista\u2019. Quando eu cheguei, ela me olhou assim e falou: \u2018Ah, que pena, ele acabou de contratar uma pessoa\u2019. E eu falei: \u2018Mas eu acabei de ligar\u2019. \u2018Ah, mas ele acabou de contratar\u2019. A\u00ed eu desci no orelh\u00e3o, mudei de voz e liguei perguntando da vaga. E ela: \u2018Ah, pode vir\u2019\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVoc\u00ea entrega curr\u00edculo, quando chega no lugar, as pessoas te olham, d\u00e3o aquela desculpa. Voc\u00ea nunca \u00e9 qualificada\u201d, diz Eliad dos Santos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para as mulheres negras, Ellen e Eliad afirmam que a dificuldade est\u00e1 tamb\u00e9m no fato de que, geralmente, elas s\u00e3o ligadas a perfis de emprego dom\u00e9stico. \u201cEles associam a mulher a esse estere\u00f3tipo de que ela serviria apenas para limpar ou para cozinhar\u201d, diz Ellen.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eliad conta que j\u00e1 foi confundida com funcion\u00e1ria de limpeza diversas vezes. \u201cEu fui em v\u00e1rios lugares como pastora ou representando algum lugar, e quantas pessoas chegaram e falaram: \u2018Ser\u00e1 que voc\u00ea pode tirar o neg\u00f3cio ali para mim? Ser\u00e1 que voc\u00ea pode pegar o neg\u00f3cio que caiu no ch\u00e3o?\u2019. E eu nem estava de uniforme, estava de salto\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00f3s fomos o \u00faltimo pa\u00eds a abolir a escravid\u00e3o. Ent\u00e3o, mesmo tendo passado tantos anos, as pessoas associam negros a servid\u00e3o\u201d, diz Eliad. Ellen concorda: \u201cAcho que isso ainda est\u00e1 muito enraizado e acredito que seja por consequ\u00eancia da escravid\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>130 anos de emancipa\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/strong>Segundo Maria Helena Machado, o processo de emancipa\u00e7\u00e3o dos negros explica a manuten\u00e7\u00e3o de certas desigualdades na sociedade brasileira atual. Ela afirma que, mesmo antes de 1888, era uma pr\u00e1tica normal escravos comprarem ou fazerem acordos para conseguir a alforria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escravos juntavam dinheiro obtido atrav\u00e9s de trabalhos secund\u00e1rios, como o de venda de cultivos pr\u00f3prios, para conseguir comprar sua liberdade. Muitos passavam anos ou mesmo d\u00e9cadas pagando essa alforria ou trabalhando para finalizar a d\u00edvida estabelecida pela liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma carta disponibilizada pelo Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo, por exemplo, exp\u00f5e a concess\u00e3o de liberdade ao escravo de nome Geraldo, um lavrador de 42 anos casado com uma mulher liberta, mediante a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os a Antonio Joaquim de Souza Costa na Fazenda da Ponte Nova, em S\u00e3o Paulo, por um per\u00edodo de seis anos. A carta \u00e9 de 1882, seis anos antes da aboli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-6235\" src=\"http:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/carta-liberdade-450x227.jpg\" alt=\"\" width=\"652\" height=\"329\" srcset=\"https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/carta-liberdade-450x227.jpg 450w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/carta-liberdade-1024x517.jpg 1024w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/carta-liberdade-300x150.jpg 300w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/carta-liberdade-768x388.jpg 768w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/carta-liberdade-24x12.jpg 24w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/carta-liberdade-36x18.jpg 36w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/carta-liberdade-48x24.jpg 48w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/carta-liberdade-1536x776.jpg 1536w, https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/carta-liberdade.jpg 1048w\" sizes=\"(max-width: 652px) 100vw, 652px\" \/><br \/>\nParte de carta de 1882 lista escravos &#8216;para serem libertados pelo fundo de emancipa\u00e7\u00e3o&#8217; em S\u00e3o Paulo (Foto: Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo) <\/p>\n<p>\u201cMuitos sa\u00edam da escravid\u00e3o totalmente depauperados. Esse processo de compra imp\u00f5e condi\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia. Mulheres, por exemplo, se tornavam criadas, amas de leite. E o sistema do trabalho dom\u00e9stico \u00e9 altamente escravista\u201d, diz a professora. Outros, segundo ela, acabavam realizando trabalhos muito semelhantes, sen\u00e3o piores, aos que realizavam quando eram escravos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o se produziram pol\u00edticas p\u00fablicas que acolhessem ou que indenizassem o pr\u00f3prio escravo. Foi um sistema indenizat\u00f3rio para os senhores\u201d, diz Maria Helena Machado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVoc\u00ea tem um sistema que favorece a manuten\u00e7\u00e3o de formas de discrimina\u00e7\u00e3o do trabalhador e, ao mesmo tem, se vulgarizam teorias raciais que asseguram que o homem e a mulher negra s\u00e3o inferiores e que seus lugares s\u00e3o sob dom\u00ednio, sob controle.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio movimento abolicionista, segundo Machado, era muito mais pautado na quest\u00e3o do progresso e de livrar o Brasil de uma ideia ultrapassada como a escravid\u00e3o. \u201cN\u00e3o era favor\u00e1vel \u00e0 popula\u00e7\u00e3o afro. Os pr\u00f3prios abolicionistas em sua maioria eram racistas. Eles queriam modernizar o pa\u00eds, pois o Brasil era mal visto porque tinha escravid\u00e3o. A igualdade n\u00e3o estava na pauta dos abolicionistas, com raras exce\u00e7\u00f5es\u201d, diz a professora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela destaca, por\u00e9m, que o 13 de maio significa muito. \u201cA lei n\u00e3o permitia mais que uma pessoa fosse comprada e vendida por outra. Mas a maneira como foi realizada, com seus muitos acidentes e manipula\u00e7\u00f5es, sem pol\u00edtica p\u00fablicas, gera essas enormes distor\u00e7\u00e3o e desigualdade que a gente tem at\u00e9 hoje.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo a professora, essa perpetua\u00e7\u00e3o das desigualdades se d\u00e1 por meio de concess\u00f5es e novas roupagens. Ou seja, as desigualdades n\u00e3o s\u00e3o iguais, mas, de acordo com ela, h\u00e1 uma op\u00e7\u00e3o por mant\u00ea-las. \u201cH\u00e1 um sentimento, uma maneira de agir generalizada que \u00e9 produto dessa sociedade escravocrata que n\u00f3s vivemos no passado.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*Colaborou Celso Tavares<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: G1 \/ CONTEC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p class=\"excerpt\">Aboli\u00e7\u00e3o completa 130 anos neste domingo (13). Segundo especialistas, per\u00edodo de escravid\u00e3o e falta de pol\u00edticas p\u00fablicas est\u00e3o por tr\u00e1s de desigualdades atuais. Negros t\u00eam \u00edndices de educa\u00e7\u00e3o mais baixos e condi\u00e7\u00f5es de vida mais prec\u00e1rias, apontam dados do IBGE. Eliad e uma conhecida ficaram desempregadas na mesma \u00e9poca. Uma amiga em comum resolveu ajudar. 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