{"id":12315,"date":"2020-05-19T09:50:16","date_gmt":"2020-05-19T12:50:16","guid":{"rendered":"http:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/?p=12315"},"modified":"2020-05-19T14:44:34","modified_gmt":"2020-05-19T17:44:34","slug":"octavio-de-lazari-junior-presidente-do-bradesco-os-ricos-tem-de-pagar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sjcbancarios.com.br\/site\/bancos\/bradesco\/octavio-de-lazari-junior-presidente-do-bradesco-os-ricos-tem-de-pagar\/","title":{"rendered":"Octavio de Lazari J\u00fanior, presidente do Bradesco: Os ricos t\u00eam de pagar"},"content":{"rendered":"<p>Para o executivo-chefe do banco, quem possui melhor condi\u00e7\u00e3o financeira deve contribuir com mais impostos para ajudar na retomada da economia (Por Alessandra Kianek)<\/p>\n<p>Ocupar a presid\u00eancia de um grande banco durante uma crise sem precedentes n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil. De um lado, alinham-se as press\u00f5es da sociedade com a economia \u00e0 beira do colapso para que tais institui\u00e7\u00f5es venham em seu socorro. Do outro, acionistas ciosos de manter o hist\u00f3rico de lucros e dividendos exigem a manuten\u00e7\u00e3o da rentabilidade. \u00c9 nessa posi\u00e7\u00e3o que se equilibra Octavio de Lazari J\u00fanior, executivo-\u00adchefe do Bradesco, o segundo maior banco privado do Brasil. Aos 56 anos, 42 deles passados dentro da institui\u00e7\u00e3o financeira, o economista acaba de completar dois anos no cargo que j\u00e1 foi de \u00edcones das finan\u00e7as nacionais como Amador Aguiar e L\u00e1zaro Brand\u00e3o. E, com a pandemia provocada pelo coronav\u00edrus, pela primeira vez viu sua rotina profissional mudar. Passou a trabalhar no escrit\u00f3rio de sua resid\u00eancia, de onde conversou com VEJA por videoconfer\u00eancia, e s\u00f3 vai \u00e0 sede do banco, em Osasco, uma vez por semana. Lazari acredita que uma das sa\u00eddas para a crise que o pa\u00eds come\u00e7a a enfrentar \u00e9 o aumento de impostos dos mais ricos \u2014 o que inclui a institui\u00e7\u00e3o que dirige. No entanto, deixa claro que o rebaixamento da taxa Selic n\u00e3o diminuir\u00e1 os juros dos cart\u00f5es de cr\u00e9dito e do cheque especial dos brasileiros. \u201cO risco de conceder cr\u00e9dito aumentou muito\u201d. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.<\/p>\n<p>Vivenciamos a maior crise que a atual gera\u00e7\u00e3o j\u00e1 viu, um mal que come\u00e7ou pela sa\u00fade e agora ataca a economia. Qual deveria ser o papel da iniciativa privada neste grave momento? Sabemos que o poder p\u00fablico n\u00e3o ter\u00e1 o capital necess\u00e1rio para fazer todos os investimentos indispens\u00e1veis daqui para a frente, e por isso a iniciativa privada dever\u00e1 participar de forma mais ativa, para que possamos resolver problemas s\u00e9rios em nosso pa\u00eds, como o sistema de sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o e o saneamento b\u00e1sico. Todos n\u00f3s precisaremos nos doar um pouco mais no futuro, assim que passar o problema da Covid-19, para conseguirmos retomar o ajuste fiscal do governo. A carga tribut\u00e1ria do pa\u00eds j\u00e1 \u00e9 elevada, mas aqueles que t\u00eam um pouco mais dever\u00e3o contribuir mais para ajudar os necessitados. Assim, poderemos resolver o problema fiscal \u2014 a heran\u00e7a que teremos pela frente.<\/p>\n<p>Quando o senhor fala em \u201ccontribuir um pouco mais\u201d, refere-se ao pagamento de mais impostos? Sim, talvez os mais ricos tenham de contribuir com 1 ponto porcentual a mais de imposto, assim como os bancos e as grandes empresas devam pagar al\u00edquota de 21% em vez de 20% (tributa\u00e7\u00e3o sobre o lucro), por um per\u00edodo predeterminado, para que possamos ajudar a economia a se recuperar. Mas isso \u00e9 apenas para os que podem. \u00c9 o futuro que nos aguarda, n\u00e3o temos como fugir.<\/p>\n<p>No balan\u00e7o financeiro do Bradesco do primeiro trimestre, o banco quase dobrou provis\u00f5es contra a inadimpl\u00eancia. Qual a raz\u00e3o desse aumento? Em meados de mar\u00e7o, come\u00e7amos a perceber que a curva de inadimpl\u00eancia aumentava e o saldo da carteira de cr\u00e9dito desacelerava. Olhando para tr\u00e1s, para o que aconteceu nas crises de 2008 e 2015, e projetando para o futuro, entendemos que n\u00e3o dever\u00edamos esperar o segundo trimestre e que era a hora de aumentar a provis\u00e3o, para 5,1 bilh\u00f5es de reais. Houve um impacto grande, o lucro do banco caiu 40%, mas era importante para preservar sua sa\u00fade financeira. Afinal, temos um dever fiduci\u00e1rio com mais de 50 milh\u00f5es de clientes. Dependendo da extens\u00e3o desta crise, talvez tenhamos de fazer provis\u00f5es adicionais no segundo trimestre. Do ponto de vista do aumento da inadimpl\u00eancia, o quadro que projetamos neste momento \u00e9 de que esta crise ser\u00e1 para os bancos pior que as de 2008 e 2015.<br \/>\n\u201cNeste momento, os cortes na Selic n\u00e3o v\u00e3o impulsionar o crescimento nem a demanda. O risco aumentou muito com a pandemia, e a influ\u00eancia nos juros se tornou marginal\u201d<\/p>\n<p>O sistema financeiro brasileiro n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3lido o suficiente para suportar esses n\u00edveis elevados de inadimpl\u00eancia? Eu garanto que est\u00e1. Quanto tempo faz que n\u00e3o se ouve falar que um banco brasileiro quebrou? Na crise de 2008, n\u00e3o tivemos nenhum problema. Entre 2015 e 2016, na Lava-Jato, os cinco maiores bancos perderam mais de 500 bilh\u00f5es de reais e nenhum quebrou. Hoje, temos balan\u00e7os s\u00f3lidos, s\u00f3 que n\u00e3o sabemos o que vem pela frente. Se esse quadro n\u00e3o se materializar, essas provis\u00f5es voltar\u00e3o para o resultado do banco.<\/p>\n<p>Com essa previs\u00e3o de aumento da inadimpl\u00eancia, como ficar\u00e3o os juros banc\u00e1rios? As linhas em andamento, as que estamos prorrogando, as de folha de pagamento ficar\u00e3o com as mesmas taxas de juros dos contratos originais. Agora, para dinheiro novo, os juros dever\u00e3o subir um pouco, em fun\u00e7\u00e3o do risco, que aumentou. Nesses casos, teremos de ser mais conservadores e rigorosos na concess\u00e3o de cr\u00e9dito. \u00c0s vezes, ao dar liquidez demais a uma empresa, ela pode quebrar. \u00c9 preciso dosar o volume de cr\u00e9dito que se concede, porque a diferen\u00e7a entre o rem\u00e9dio e o veneno \u00e9 justamente a quantidade.<\/p>\n<p>O spread banc\u00e1rio hoje j\u00e1 n\u00e3o seria alto o bastante? Quando a gente olha o spread das opera\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito, o do cheque especial e o do cart\u00e3o de cr\u00e9dito s\u00e3o dois pontos fora da curva, por causa da inadimpl\u00eancia, da carga fiscal e da dificuldade de recuperar o dinheiro. Se olharmos as opera\u00e7\u00f5es que mais cresceram nos bancos, elas n\u00e3o t\u00eam spread alto. O cr\u00e9dito imobili\u00e1rio, por exemplo, deve deixar uma margem de 1% ao ano. Se olharmos o balan\u00e7o das institui\u00e7\u00f5es financeiras, o spread banc\u00e1rio no Brasil \u00e9, em m\u00e9dia, de 10% ao ano, n\u00e3o \u00e9 alto.<\/p>\n<p>Como o senhor v\u00ea a redu\u00e7\u00e3o de 0,75 ponto porcentual na taxa Selic realizada na \u00faltima reuni\u00e3o do Copom? E qual a influ\u00eancia desse corte nos juros banc\u00e1rios? Foi uma redu\u00e7\u00e3o acima do esperado, mas entendo que o Banco Central viu espa\u00e7o para isso acontecer, pois a infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 sob controle. Entretanto, cortes adicionais n\u00e3o v\u00e3o impulsionar o crescimento econ\u00f4mico nem a demanda neste momento de crise. A influ\u00eancia nos juros \u00e9 marginal, uma vez que o risco aumentou muito com a pandemia.<\/p>\n<p>O Banco Central anunciou a regulamenta\u00e7\u00e3o do open banking, em que o cliente pode carregar seu hist\u00f3rico banc\u00e1rio de uma institui\u00e7\u00e3o para outra e que deve come\u00e7ar a funcionar em novembro. Como o senhor avalia o sistema? Neste momento de crise, n\u00e3o vejo isso como uma quest\u00e3o urgente. Talvez pudesse ser deixado para o pr\u00f3ximo ano. \u00c9 preciso corrigir assimetrias, porque os grandes bancos pagam 90% dos investimentos para construir esses hist\u00f3ricos, enquanto todos os menores e as fintechs v\u00e3o usufruir o benef\u00edcio sem ter nenhum custo. Talvez o maior investimento previsto neste ano dentro do Bradesco seja exatamente nessa \u00e1rea. N\u00e3o \u00e9 justo todo o custo ficar conosco e o benef\u00edcio com as fintechs. N\u00f3s temos uma estrutura grande de an\u00e1lise de cr\u00e9dito, de cadastro, de tecnologia, de custos de armazenamento de dados, para poder dar esse atendimento ao cliente. Gra\u00e7as a Deus que, neste per\u00edodo de crise, temos um sistema banc\u00e1rio robusto, com 80% dele nas m\u00e3os de cinco grandes bancos, e n\u00e3o nas m\u00e3os de 3\u2009000 fintechs. Imagine como seria distribuir os recursos de combate \u00e0 crise se voc\u00ea n\u00e3o tivesse com quem falar rapidamente e com capacidade de fazer funcionar? Os bancos precisam ser respeitados por tudo o que fizeram na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O senhor acredita que essa abertura de dados banc\u00e1rios possa aumentar a concorr\u00eancia e provocar uma queda nas taxas de juros? A concorr\u00eancia vai aumentar, com certeza. Quem regula a taxa de juros \u00e9 o mercado. Se o meu concorrente come\u00e7a a praticar taxas menores, eu tenho duas op\u00e7\u00f5es: acompanho ou fico fora do mercado. A concorr\u00eancia tem de existir e o open banking \u00e9 uma evolu\u00e7\u00e3o, mas deve ser dosado corretamente para, em primeiro lugar, preservar a solidez do sistema financeiro e, em segundo, respeitar os investimentos que fizemos ao longo de todos esses anos. Em 2019, os cinco maiores bancos pagaram 70 bilh\u00f5es de reais em impostos, e isso deve ser colocado na balan\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastassem os choques na sa\u00fade e na economia, assistimos no Brasil \u00e0 ascens\u00e3o da tens\u00e3o pol\u00edtica, com sa\u00edda de ministros, disputas entre poderes. Como o senhor v\u00ea o comportamento do presidente da Rep\u00fablica, Jair Bolsonaro? A democracia que vivemos em plenitude no Brasil deve ser respeitada, e a beleza dela est\u00e1 justamente na diverg\u00eancia de opini\u00f5es. Se n\u00e3o fosse assim, n\u00e3o seria democracia. Temos de respeitar as opini\u00f5es divergentes, caso contr\u00e1rio, n\u00e3o crescemos como pa\u00eds, como cidad\u00e3os, como empresas. Deve existir um equil\u00edbrio, a dosagem correta, das a\u00e7\u00f5es para a \u00e1rea da sa\u00fade e da economia para que possamos passar por este per\u00edodo. Entretanto, tenho certeza de que o conflito agora n\u00e3o traz benef\u00edcio para ningu\u00e9m. O momento carece de uni\u00e3o para combater esse inimigo em comum que \u00e9 o v\u00edrus. Depois, a\u00ed sim, recuperamos a economia, o emprego.<br \/>\n\u201cO conflito que existe hoje no pa\u00eds n\u00e3o traz benef\u00edcio para ningu\u00e9m. O momento carece de uni\u00e3o para combater o v\u00edrus. Depois recuperamos a economia, o emprego\u201d<\/p>\n<p>O que mais a equipe econ\u00f4mica deveria fazer para combater os impactos da crise? Tem se falado muito em emiss\u00e3o monet\u00e1ria. Seria uma sa\u00edda? Como economista, n\u00e3o acredito na emiss\u00e3o de dinheiro. Para emitir, \u00e9 preciso ter lastro. Est\u00e1 na mem\u00f3ria o legado que isso deixou para o Brasil no passado: hiperinfla\u00e7\u00e3o, desemprego e descontrole absoluto. Para que a economia se restabele\u00e7a, o governo ter\u00e1 de mexer ainda mais na parte fiscal, com o objetivo de ajudar as pessoas mais necessitadas. Isso significa que todo aquele benef\u00edcio de 800 bilh\u00f5es de reais de economia em dez anos conseguidos com a aprova\u00e7\u00e3o da reforma da Previd\u00eancia ser\u00e1 consumido no combate aos efeitos da Covid-19.<\/p>\n<p>A equipe econ\u00f4mica prev\u00ea um rombo fiscal neste ano de mais de 600 bilh\u00f5es de reais e o aumento da d\u00edvida p\u00fablica para mais de 90% do PIB. De que forma o governo poder\u00e1 retomar as r\u00e9deas do ajuste fiscal? Neste momento, devemos dar prioridade \u00e0 sa\u00fade. Passada esta fase, o governo ter\u00e1 de tomar medidas. Ser\u00e1 preciso cortar despesas e implementar uma arrecada\u00e7\u00e3o de impostos mais justa, com o crescimento sendo impulsionado pela iniciativa privada. N\u00e3o acredito que ser\u00e1 uma recupera\u00e7\u00e3o em \u201cV\u201d, na qual a retomada \u00e9 t\u00e3o r\u00e1pida como a queda, mas sim de uma forma mais gradual. Se o governo tiver a sabedoria de colocar os recursos no lugar certo, gerar a atratividade das empresas que ser\u00e3o privatizadas e n\u00e3o pesar a m\u00e3o do Estado no imposto, teremos condi\u00e7\u00f5es para retomar o crescimento, com qualidade e de longo prazo.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o as li\u00e7\u00f5es que esta crise deixar\u00e1 para a sociedade? N\u00f3s nos voltamos para aquilo que h\u00e1 de mais b\u00e1sico para o ser humano: a preserva\u00e7\u00e3o da vida. Antes, pens\u00e1vamos no futuro. Agora, vivemos um dia de cada vez. Haver\u00e1 grande transforma\u00e7\u00e3o na forma como trabalhamos. Sobretudo, vamos repensar nossos h\u00e1bitos de consumo, focar o que \u00e9 efetivamente necess\u00e1rio, e criar um modo de vida mais sustent\u00e1vel para as futuras gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Fonte: Revista Veja \/ Contec<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p class=\"excerpt\">Para o executivo-chefe do banco, quem possui melhor condi\u00e7\u00e3o financeira deve contribuir com mais impostos para ajudar na retomada da economia (Por Alessandra Kianek) Ocupar a presid\u00eancia de um grande banco durante uma crise sem precedentes n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil. 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